O fantasma que caça jacarés

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No rio Guaporé que faz divisa do Brasil com a Bolívia, no Estado de Rondônia, acima da cidadela de Pedras Negras no lado brasileiro, há um pequeno lugarejo boliviano chamado Remanso, onde tem um armazém que vende de tudo, de armas a doces, confecções e ferramentas. Além de pólvora, chumbo e espoleta para quem desejar recarregar cartuchos já deflagrados uma vez.

Perto do armazém, numa casa simples de madeira nativa coberta de folhas de palmeiras, vivia um jovem de 18 anos chamado apenas por Ramon. Além de humilde, ele era exímio caçador de animais selvagens e, ótimo pirangueiro, aquele que acompanha pescadores e mostra os melhores locais para pegar os grandes peixes.

Todo dinheiro que ele ganhava com seu trabalho, Ramon comprava alimentos e roupas para uma pequena irmã que tinha, além de ajudar a mãe e o pai.

Um dia apareceu na vida de Ramon uma meia dúzia de paraguaios e brasileiros que praticavam caça ilegal, matavam onças e jacarés para vender os couros no mercado negro. Ramon era exímio caçador de jacarés e o rio Guaporé tinha muitos, das espécies Açu e  Tinga. O Açu chega a medir seis metros e uns poucos centímetros mais, já o Tinga é menor e tem o rabo curto, como se tivesse sido aparado por um terçado.

Durante a noite sem luar é propício para caçar animais, é quando os de terra firme saem para beber água nos rios e igarapés e os caboclos da Amazônia os encandeiam com lanternas e atiram certeiramente. Só matam para alimentar suas famílias, diferentemente dos caçadores profissionais que só tiram o couro e jogam o resto para as piranhas.

Numa noite o jovem Ramon foi atrapalhado numa noite escura por um paraguaio e caiu no rio sendo devorado por um imenso jacaré Açu. Foi uma tragédia. A região toda compareceu ao velório do que sobrou do seu corpo, que foi sepultado num caixão selado.  E o tempo foi passando…

O caçador paraguaio culpou o jovem que teria chegado ao ninho de uma fêmea de Açu quando foram surpreendidos pelo macho que estava camuflado chocando os ovos. Teria sido ai que o jovem Ramon  caiu na água e foi morto pelo jacaré macho e, o que sobrou do seu corpo foi resgatado e sepultado na beira do rio Guaporé, conforme narrou o caçador paraguaio às autoridades bolivianas.

Sabe-se que alguns dos caçadores clandestinos foram escorraçados e outros presos por policiais federais do Brasil e dois deles, paraguaios, foram caçados na selva no lado boliviano pela tropa de elite Os Leopardos. Esta tropa foi treinada pelo Droug Enforcement Agenci – DEA –uma organização norte-americana que combate o tráfico de drogas no mundo inteiro.

E o tempo foi passando e quase ninguém mais falava sobre o acontecido ou sobre o que teria sido o jovem Ramon. Seus familiares se mudaram para a cidade de São Romão, uma pequena, mas antiga cidade do interior da Bolívia onde dois assaltantes americanos, Sandance Cassidy e outro companheiro, cujo nome não me recordo agora, foram mortos quando tentavam roubar o banco local que havia recebido uma carga de lingotes de ouro para ser depositado em seu cofre.

Em meados do século 19, os dois assaltantes foram emboscados e mortos pelas forças bolivianas. Mas voltando ao jovem que caçava jacarés, seu nome voltou à tona na região de Remanso e em pouco tempo virou uma lenda contada até hoje. A minha querida Santa Tambura diz que lá ela não vai nem amarrada.

É que pescadores e caçadores dos dois lados da fronteira passaram a contar fatos sobrenaturais acerca do jovem Ramon. Um brasileiro, Sidney que serviu o Exército Brasileiro no Forte Príncipe da Beira, em Costa Marques e morava na comunidade Porto Rolim de Moura, jovem acostumado a passar noites no rio pescando ou caçando, afirmou que viu um fato que o deixou de cabelos em pé e, ligou o motor rabeta da sua canoa e voou para casa.

Várias outras pessoas, além do ex-militar Sidney, afirmaram que durante a noite quando pescavam ou caçavam jacarés para alimentar suas famílias, viam aparecer ao lado uma canoa iluminada e o jovem Ramon em pé, com sua espingarda nas mãos. Era, segundo um boliviano assustado contou, uma imagem do outro mundo. Ramon veio, mas não se materializou, ficou como uma luz branca, intensa, tanto ele quanto a sua canoa.

E, até hoje, afirmam os ribeirinhos dos dois lados da fronteira Bolívia/Brasil, que por aquelas paragens, ninguém se atreve a pescar ou caçar durante as noites escuras. Se tentar, vão dar com o fantasma de Ramon e sua canoa iluminada e ele com sua espingarda nas mãos. Uma visão fantasmagórica. Acredite se quiser! Vou! Fui! Inté!

 

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamazonia39@gmail.com – blog https://kfouriamazonia.wordpress.com/ – Contatos para palestras: 17-99186-7015.

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