Minha primeira onça

onça

Dizem que na vida sempre tem a primeira vez. Nada de pensarem em uma frase que dê sentido dúbio, ok? Vou relatar um fato que aconteceu comigo em 1972 quando eu ainda era o chefe da Segurança do Grupo Paranapanema na Região Amazônica, depois que deixei o Exército.

Eu comprara umas terras do saudoso seringalista Hugo Mota no km 129,5 da BR-364 sentido Porto Velho-Cuiabá e lá fiz uma casa de madeira e passava alguns dias pescando nos rios Jamari e Rio Preto no km 138 onde um goiano chamado Napoleão tinha um posto de combustível.

Depois eu vendi estas terras para um catarinense chamado Dario que, montou um restaurante chamado até hoje por Peixe Frito e ele cria e vende alevinos de pirarucu, tambaqui, tambacu e pirapitinga e outros mais. Ali se tornou parada obrigatória para quem gosta de comer um bom peixe frito na hora.

No posto do Rio Preto fiz amizade com um jovem caboclo da região que nascera perto dali, do outro lado da ponte do Rio Preto onde seu pai, senhor Felipe, falecera recentemente com 96 anos e está enterrado há poucos metros da margem da BR-364, hoje asfaltada.

O jovem se chamava Valmir, muito sorridente, prestativo e honesto. Mas tinha um defeito grave, quando bebia ficava mais furioso que surucucu pico-de-jaca ameaçada.

Seu Felipe, o pai de Valmir, trabalhou com o famoso Marechal Francisco Cândido Rondon que levou o telégrafo de Cuiabá até a divisa com a Bolívia na cidade rondoniense de Guajará-Mirim.

Um dia que estava de folga Valmir me convidou para pescar e caçar. Disse que tinha que caçar uma onça pintada que fora encomendada por um paraguaio que morava num rancho do outro lado da estrada.  Como eu era e ainda sou fascinado por pescaria, topei a parada. Ele disse para eu levar um bom farolete e uma espingarda que passaríamos a noite numa espera, pois ele tinha de matar uma onça pintada que alguém encomendara.

Saímos de manhã numa canoinha de madeira e remamos rio acima. Eu pescava de vez em quando e, até o almoço, havia pego uma pirapitinga e dois trairões. Assamos numa fogueira improvisada e comemos com farinha de puba. Depois continuamos a subir o Rio Preto até chegar onde o Valmir iria armar as iscas e as esperas para caçar a onça pintada.

Eu confesso que estava ansioso e nervoso, afinal, nunca caçara uma onça na vida, apesar de ver muitos bichos gigantes e ferozes nos dois anos que fiquei na África antes de ir trabalhar na Amazônia.

Chegamos onde o Valmir dissera que ali era o habitat (a morada) da pintada. Amarramos duas redes em galhos da árvore, o caboclo colocou as iscas para a onça e, trepou na árvore e se acomodou na sua rede. Eu já estava deitado na minha com a espingarda e a  lanterna, prontas para quando a noite e a onça chegassem.

Confesso que nunca gostei de filme de terror, mas quando o sol estava nascendo, acordei com gritos apavorantes do Valmir. Uma onça pintada, quase do tamanho de um jegue, pulava e tentava pegá-lo na rede, ele gritava apavorado e disparava sua espingarda que negava fogo. As unhas da onça raspavam a rede onde o jovem caçador se encontrava. Eu fiquei supernervoso e com medo também, afinal, nunca vira uma fera daquele tamanho e com desejos assassinos tão intensos. Comecei a tremer que parecia uma máquina de arroz funcionando…

Ai lembrei-me dos recursos que aprendera no Exército, tentei regularizar a corrente sanguínea e acalmar o coração e fazer os pulmões a diminuírem suas atividades, através de exercícios respiratórios para reduzir um pouco a corrente de adrenalina que inundava meu corpo. E consegui…

Quando minha concentração voltara ao normal, disparei um tiro certeiro com minha 16 e a baita onça tombou de lado e ficou abanando a cauda até expirar. Senti alívio e pena ao mesmo tempo.

Depois o Valmir disse que sua espingarda bateu catolé três vezes, a onça o viu ou sentiu seu cheiro e, ele passou de caçador a caçado. Valmir, horas depois tirou o couro da pintada e retornamos ao posto de combustível onde deixara minha caminhonete e voltei para minha propriedade, jurando e prometendo nunca mais caçar uma onça.

Mas o destino não permitiu e fui obrigado a matar outras três durante o tempo que vivi na região amazônica, nada mais que 40 anos.

Dias depois li que Valmir fora morto a facadas por um desafeto que queria a sua namorada, uma bela cuiabana que era a cozinheira do posto do Rio Preto, no km 138, sentido Porto Velho-Cuiabá. Fiquei muito triste. Afinal, fora da bebida ele era um cara genial, prestativo e trabalhador, sempre sorrindo e pronto para atender a todos que o procuravam. O pior inimigo do jovem não fora a onça, mas o álcool. Vou! Fui! Inté!

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamazonia39@gmail.com – blog https://kfouriamazonia.wordpress.com/ – Contatos para palestras: 17-99186-7015.

 

 

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