O menino e a onça

brincando

Em meados dos anos 70 o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA – estava implantando os projetos de assentamento Burareiro e Marechal Dutra, na região de Ariquemes, onde havíamos aberto as primeiras ruas para assentar famílias de colonos que se embrenhavam selva adentro para formar seus lotes agrícolas.

Se não me falha a memória, o governador do Território Federal de Rondônia era o coronel do Exército, Humberto da Silva Guedes, muito amigo do proprietário do extinto jornal o Guaporé, Emanuel Pontes Pinto, onde eu trabalhava.

Era muito comum naquela época os governadores pedirem favores aos jornalistas que se destacavam na mídia regional. Entre eles estavam o saudoso Vinicius Danín, o colunista social mais granjeado até hoje, o cearense Ciro Pinheiro, Montezuma Cruz, Lucio Albuquerque, Jorcêne Martins e outros que fizeram parte da criação ou acompanharam o surgimento de várias cidades rondonienses.

Foi ai que conheci o atual governador doutor Confúncio Moura, que junto com seu irmão Nobel Moura, também médico, haviam chegado de Goiás para se estabelecer onde hoje é a pujante cidade de Ariquemes.

Conseguiram uma casa de taipa coberta com folhas de coqueiros, na cabeceira da pista de pouso na Vila Velha, onde eu e o comandante Sidney, piloto do Grupo Paranapanema, levantamos voo e descíamos quase que diariamente. Ali o governador atual e seu irmão recebiam dos pobres colonos, como pagamento, cachos de bananas, galinhas, patos e frutas que já estavam produzindo. Mas nunca deixaram de atender uma pessoa sequer, com ou sem dinheiro.

Após a instalação INCRA, ajudei na distribuição de lotes para famílias de colonos, afinal o núcleo urbano passou a dar sustentação, para as famílias das linhas vicinais e para as famílias da Vila Velha de Ariquemes, na margem do rio Jamari e que se chamava Vila dos Papagaios, local onde o Marechal Cândido Rondon instalara uma estação de telégrafo.

Foi nestas andanças que conheci o sargento Brasil, falecido recentemente como capitão da Polícia Militar e  o gaúcho de Lagoa Vermelha, Antônio Gasparini, também já falecido, que já morava na época numa grande casa no setor UM de Ariquemes, cujo terreno o ajudei a conseguir.

Gasparini queria montar um comércio de caça e pesca (Casa Itaipu) e, como eu tinha conhecimento no Exército, consegui que ele tirasse licença e passou a vender tudo que a lei permite, armas e munição, farto material para pesca também. Dias depois ele recebe um jovem casal do Sul, seus sobrinhos e pediu que eu conseguisse um lote de terras rural para eles se assentarem.

O jovem casal conseguiu um lote de terras ao lado da fazenda de Gasparini que os ajudava em quase tudo. Um ano depois o casal já tinha roça limpa e repleta de plantações de sustento e fruteiras. A casa bem construída, o quintal em volta bem limpo e uma cisterna bem construída de onde tiravam água cristalina para seu sustento.

Um dia o casal estava uns 60 metros da casa e deixaram seu filhinho que somente engatinhava brincando no quintal perto da cisterna. Volta e meia olhavam para lá para se certificar que estava tudo bem.

Darcy e Rosa limpavam pés de fruteiras, e colhiam inhames, abobrinhas e tomates para o jantar e, o jovem pediu para a esposa ir ao poço  (cisterna) buscar água fresca para ele. Ela vai e volta correndo, apavorada e sem conseguir articular uma palavra sequer, estava em estado catatônico. Apenas apontava freneticamente com a mão direita em direção a casa.

Darcy sai correndo em direção onde deixaram o bebê, parou estático, com a boca aberta e com o coração tentando sair pela boca. A cena que se mostrava diante dele era simplesmente inverossímil!

Entre a porta da casa e a cisterna, o filhinho do casal gargalhava feliz, ria e tentava falar, seus olhinhos brilhavam de felicidade, afinal, estava recebendo carinhos e beijos seguidos de lânguidas lambidas… De uma enorme onça pintada!

A onça enorme, com as costas no chão, e a criança debruçada sobre a barriga dela recebia afagos com as enormes patas do felino. Ela lambia seu rostinho, girava a criança como uma mãe usa as mãos para fazer afagos, ele montado na sua barriga e a fera feliz da vida continuava lambendo seu rostinho sujo de terra..  E o menino gargalhava feliz da vida..

Darcy ficou num dilema e com terror no coração. Ele não podia entrar na casa para pegar sua espingarda, porque a onça estava entre ele e a porta da casa. E a onça continuava a brincar feliz com seu filho. Sua mulher, Rosa, continuava paralisada de medo.

Segundos que pareciam horas, de repente, a onça percebeu que estava sendo vigiada. Deve ter sentido o cheiro do casal suado pelo trabalho e, lentamente vira-se de lado, deixa a criança escorregar de leve para o chão, dá uma última lambida no rostinho do menino, se levanta e caminha em direção à mata que ficava apenas alguns metros da casa do jovem casal.

De vez em quando a baita pintada virava a cabeça para traz, quem sabe com saudade da criança e caminhou até sumir na selva bruta. Darcy e Rosa correram, entraram em casa e o jovem pegou a espingarda e, saindo,  apontou na direção da onça, mas Rosa segurou lentamente o cano da arma das mãos do marido e pediu para ele não atirar.

– Eu acho que não teria coragem para atirar Rosa…

– Eu sei marido, ela apenas amou e fez carinho em nosso filho. Ela deve ter uma ninhada de gatinhos por ai, não?

Com certeza minha querida! Ela pode também ter perdido sua cria, não?

Acreditem se quiserem, mas o fato foi verídico. Vou! Fui! Inté!

 

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamazonia39@gmail.com – blog https://kfouriamazonia.wordpress.com/ – Contatos para palestras: 17-99186-7015.

 

 

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Um comentário sobre “O menino e a onça

  1. Tenho acompanhado seus artigos sempre em defesa da maior floresta tropical do mundo. Continue escrevendo para chamar a atenção dos incompetentes de Brasília. É lá que está a solução para buscar a meta: desmatamento zero. João de Oliveira e Silva – São Paulo, capital.

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