Uma estória história sobre os feitiços dos botos (2ª Parte)

boto

Zé Maria continuava bravo com os botos que estavam comendo os peixes que ele e seus companheiros  esperavam pescar para o jantar de suas famílias. Ele não se conformava com isso: dizia quase aos gritos que não iria embora do meio do cardume e que continuaria pescando no meio dos botos.

Um dos amigos mais chegados disse-lhe para deixar para o dia seguinte e pediu que ele voltasse para a ilhota de areia no meio do Madeira para continuarem a jogar bola com uma pelota velha e puída, mas que fazia a alegria dos jovens nativos da região.

Mas Zé Maria estava possessivo, fora de si e os amigos em várias outras canoinhas, de madeiras voltaram para a ilhota de areia e, foram jogar futebol alegremente, mas não tiravam os olhos do amigo que continuava pescando no meio do cardume de botos e também não parava de gritar palavrões contra os animais.

De repente um dos amigos do jovem enfurecido percebeu que alguma coisa não estava bem com o jovem que de pé no meio de sua canoinha, esbravejava e fazia movimentos estranhos com os braços e abaixava a cabeça e a erguia repentinamente e gritava continuamente com os botos. Notaram que o jovem começou a tirar a roupa e ficou nu como vieram ao mundo.

Preocupados, meia dúzia dos amigos em duas canoas das maiores que lá estavam, se dirigiram até onde estava  Zé Maria e ficaram preocupados com o amigo. Nu, mais bravo que siri na lata, não parava de gritar palavrões contra o cardume de botos que, agora nadavam em volta de sua canoa.

Vendo que o amigo perdera a razão, pularam para dentro de sua canoa e tentaram pegá-lo, mas ele estava envolto numa gosma como a que envolve os peixes de couro, só que era em maior quantidade. Como não conseguiam segurá-lo, um dos amigos lembrou aos demais de ir pegar uma rede para envolvê-lo e assim, poderiam levá-lo para o postinho de Saúde da comunidade de Assunção e medicá-lo.

Com a rede, Zé Maria foi envolvido nela  por seis companheiros que usaram muita força, mas conseguiram levá-lo para a Unidade de Saúde local onde a enfermeira da localidade, Maria de Oliveira, lhe aplicou uma injeção de Decepam para acalmar o jovem nativo da região que fora enfeitiçado pelos botos. Zé Maria foi levado para o Hospital de Base de Porto Velho, o terceiro do Brasil e, lá ficou internado no setor de psiquiatria para ser tratado.

A cura de Zé Maria demorou meses e contou com o carinho dos amigos e da família do senhor Valdemar Vieira, cuja filha a enfermeira que o atendera em Assunção, agora estava trabalhando como enfermeira no Hospital de Base na capital e lhe dedicava mais tempo e carinho.

Depois de curado e já em sua casa na localidade de Assunção, o jovem contou aos amigos numa rodada de assados com farinha e bebidas, onde estavam presentes também algumas das famílias da periferia, festejando a volta do jovem. Ele contou o seguinte:

Quando estava no meio do cardume de botos, muito irritado por eles estragarem a sua pescaria, gritou para que uma bota pulasse para dentro de sua canoa para transar com ela. De repente ele notou a traseira de sua canoa afundar e quase ir a pique, olhou para trás e viu duas lindas jovens de corpos esculturais,  nuas, sorridentes, muito parecidas uma com a outra, convidando-o com gestos de suas mãos para ir até elas e disseram que foram mandadas ali para namorá-lo, satisfazer seu desejo e depois levá-lo para as profundezas do rio Madeira. Desse instante em diante, disse o jovem, não me lembro de mais de nada, apenas vocês me socorrendo e a Maria me aplicando uma injeção que me fez apagar de vez.

Certo dia Zé Maria foi até a casa da dona Ritinha Pretinha para se benzer e, assim que ele sentou à sua frente, a benzedeira lhe disse que iria lhe contar um fato e que era para ele não “mangar” (tripudiar ou gozar) da cara dela, gíria da Amazônia.

Quando o jovem ia saindo para ir embora, acompanhado de sua mãe, e chegaram na soleira da porta de taipas, Dona Pretinha lhe disse novamente para ele não mangar mais dos botos, porque eles realmente tem poderes sobrenaturais e que os humanos descendem deles, mas desconhecem seus verdadeiros poderes.

Quando Zé Maria e sua mãe estavam já para sair pela porta, dona Pretinha perguntou ao  jovem:

– Você sabe quem eram as duas moças que subiram à sua canoa e o convidaram para namorar?

– Não sei não dona Pretinha, a senhora sabe?

Sei sim, meu filho, são as duas gêmeas da Mundoca, que morreram com ela no naufrágio quando elas ainda estavam no ventre materno naquela noite de Natal!

Esta é uma história verdadeira, acredite se quiser!  A Santa Tambura e o seringalista Sissi se arrepiaram, porque eles conhecem bem as lendas da linda e exuberante floresta da

Amazônia.Vou! Fui! Inté!

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamasonia39@gmail.com Bloog: https:\\kfouriamaasonia.worpress.com – Contato P\palestras: 17-9981-7015.

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