As catilinárias – Cícero e Julio Cesar

cesar

Imperador Julio Cesar

Diante da barbárie política e econômica que atravessa nossa união, resolvi me encontrar com meu séquito amazônico para discutir o que fazer. Sentadinha ao meu lado minha amada Santa Tambura, depois o seringalista Sissi, o Pajé Miratinga dos Uru Eu Uau Uau e até o Nézin Manguaça, que neste momento ainda não havia entortado nenhuma.

Como não chegamos a nenhum veredicto, resolvemos consultar um advogado de renome e, por unanimidade escolhemos um de São José do Rio Preto, minha terra naturalis brasilis. Foi com grata surpresa que o doutor Wanderley Romano Calil se reuniu comigo e meu séquito e passou uma pérola acontecida no Império Romano. Deixamos a Lava Jato e os trambiqueiros políticos para o juiz federal Sergio Moro. Arre égua! Chumbo grosso neles doutor!

“A notícia histórica assevera que Julio Cesar foi o primeiro orador em seu tempo. Ele nasceu no ano 100 a.C. e morreu em 44 a.c., atacado às portas do Senado Romano por um bando de sicários, entre os quais seu filho adotivo Brutus. Cesar foi um verdadeiro gigante, na guerra e na eloquência. Na sessão em que se julgava Catilínia, também Senador General, depois da fala de Cícero (Catilinárias), nenhum outro Senador ousaria defender o acusado que, fora apresentado como o mais vil dos traidores, embora seu crime tenha sido o de revoltar-se sobre as medidas desumanas aplicadas contra a plebe.” Alguma semelhança com a realidade brasileira na atualidade, caros leitores?

E continuou explanando o causídico: “Se Julio Cesar fosse um comodista, ter-se-ia conformado com o destino de Catilina. Mas a sorte deste General já estava selada, principalmente depois do discurso de Catão, apoiando Cícero. Mas Julio Cesar jamais fora um homem comum. Suas posições eram tomadas com base no justo e no direito. Assim é que ele assumiu a tribuna e proferiu o discurso mais impressionante produzido no Senado Romano”. Prestem atenção, congressistas atuais do Brasil.

“Os que deliberaram sobre negócios duvidosos, devem ter cólera. Animados desses sentimentos, sentem-se todos em dificuldades para descobrir a verdade. Ninguém pode, ao mesmo tempo, servir as suas paixões e aos seus interesses. Desprendida a razão do que a ofusca, todos vos sereis fortes; se porém, a paixão se apoderar de vossos espíritos e os dominar, sentir-vos-ei sem forças. Seria oportuna a ocasião, senadores para lembrar-vos quantos reis e povos, arrastado pela cólera ou mal entendida compaixão, tomaram decisões funesta.” E o doutor foi além em sua peroração…

“Lembrar-vos, senadores de que não é permitido a uns o que é a outros. Os que vivem na obscuridade podem cometer falhas pelo seu arrebatamento. Poucos conhecê-las-ão, mas os que, revestidos de alta posição, nada fazem que não caiam no conhecimento público.” E, a Santa Tambura nem piscava diante de tanta eloquência do causídico rio-pretense sobre o discurso do imperador Julio Cesar.

E o imperador continuou: “Perguntar-me-ão, porém, se haverá crueldade para com os indivíduos responsáveis por um atroz atentado? Responderei com outra pergunta: Se a pena é leve, convirá respeitar a lei ou infringi-la, inferiorizando-a? Perguntar-me-ão ainda: Quem ousará censurar uma decisão contra os que desejam assinar a República, pois, que merece a sorte que tiveram. Entretanto senadores, é mister que reflitais nas consequências da vossa decisão sobre a sorte de dos acusados.”

E continuou Julio Cesar: “Os lacedominios impuseram a Atenas vencida um governo de 30 chefes que começaram por condenar a morte, sem julgamentos, aqueles que por cujos crimes eram odiados pelo público. O povo desse poder, aumentou, bons e maus, foram imolados arbitrariamente e a cidade vivia aterrada. Atenas escravizada, espiou cruelmente a sua alegria insensata. Em nossos dias, quando Sila, vencedor, fez estrangular Damasipo e outros, chegados às dignidades por desgraça da República, quem deixou louvar esses procedimentos? Esses celerados, esses facciosos, cujas sedições haviam subvertido a República, todos diziam que eles deveriam morrer. Aquelas execuções, porém, foram o prenúncio de uma grande carnificina. Depois, quando alguém queria apossar-se de uma casa, ou terras alheias e, até um vaso ou de um vestuário, arranjava uma intriga, de modo que o nome do possuidor figurasse no número dos prescritos.”

Dois mil anos depois, disse o doutor Calil, não vemos diferença entre os políticos de antes e os de agora. Perguntamos: Qual a semelhança ou similiaridade entre a atuação da avalanche acusatória que ocorre em Curitiba, e o caso retratado na oratória do mais eminente e maior orador do Senado Romano? Muitos, inclusive juristas, buscam justificar decretos prisionais espúrios, absolutamente ilícitos, desgarrados e tresmalhados do estado de flagrância, sob o pretexto inaceitável de que a inferiorização da lei, in casu, seria necessária. Não há dúvida, porém, que a extrapolação da legalidade vai acabar atacando todo sistema jurídico, e todas as leis sedizentes protetivas do cidadão. “Arrupiei”, disse Nézim Manguaça.  Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência… Vou! Fui! Inté!

 

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