Por quem os homens choram hoje?

Isso se você encontrar um homem maduro, bem apessoado, vivendo em casa própria e outro, maltrapilho, chinelos de borracha nos pés, mas ambos tristes, monologando coisas sem nexo, ou falando de futebol, carnaval ou fatos do passado, que permeiam alegria, que os transportam de um estado psíquico que vai e vem, tanto para alegria ou tristeza. Se encontrar alguém nesta situação, não ache estranho, não, são seres humanos que tiveram de tudo de bom nas suas existências e, hoje choram a situação presente. Simples, não?

Talvez seja simples para um psicólogo ou psiquiatra. Mas não para nós, simples mortais, que mal sabemos soletrar nosso beabá e damos duro para alimentar mulher, filhos e netos.

Todavia, lá dos cipoais da úmida e gotejante Amazônia, vem a resposta para este paradigma através do filósofo Zé Praxedes ou, do falido e culto seringalista Sissi, que perdeu suas terras para grileiros que assolam até hoje a Calha Norte do Brasil.

Segundo estes dois especialistas em sobrevivência nas florestas tropicais, onde os homens são simples e se completam com uma cabana feita de paxiuba e de suas próprias folhas, produtos da natureza presente em todos os lugares da mata. Destes produtos naturais eles fazem suas cabanas na beira de um rio, um lago ou até mesmo de um pequeno igarapé. Conseguem uma bela cabocla, juntam seus quase nada e, vivem até além dos cem anos de idade, comendo peixe frito, assado na brasa, muquecado com os temperos que plantam no quintal, ou também assado na folha da bananeira pra dar um sabor exótico e saboroso. Quando perdem os dentes, tomam o famoso xibé, que nada mais é do que peixe cozido na água com sal e farinha de puba.

Sabem o que mais eles pedem pra Deus? Que não falte peixes, caça e macaxeira no quintal, pra fazer a farinha que é consumida com tudo, inclusive com açaí e açúcar que lhes adoçam não apenas o estômago, mas também suas simples e humildes existências. É isso que o caboclo amazônico pede ao seu Deus, nada mais natural, não?

Enquanto isso, aqui na civilização eletrônica, onde tudo acontece instantaneamente devido a parafernália que inventaram, os homens choram sim. Choram pelas malditas guerras, secas, terremotos, tufões, fome, sede, por falta de habitação, de comida para os filhos pequenos ou porque a empresa fornecedora cortou a energia elétrica ou a água por falta de pagamento.

Choram porque chefes de famílias perderam o emprego e as fábricas fecharam devido o descalabro político e econômico que o país atravessa.

E, a tão sonhada chuva cai muito em alguns cantos, e mata pobres que vivem pendurados em barrancos das grandes cidades, outros choram por causa da seca, ou choram porque o banco lhes tomou o único automóvel, mesmo básico, mas que servia de ferramenta de trabalho do chefe da casa e, também, para levar os filhos na escola e a mulher no supermercado.

Isto acabou, menos as lágrimas dos operários demitidos sumariamente das indústria que faliram, ou do comércio varejista que cerrou suas portas. Outros choram porque não conseguiram pagar os aluguéis e foram despejados e não têm onde morar com a mulher e o bando de filhos que choram ao seu redor, também de fome. Viver é preciso, chorar às vezes, também! Ai minha querida Santa Tambura pergunta: De quem é a culpa meu amado guru?

Quem não sabe minha querida amiga? Pergunte a qualquer brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, quem nos deixou nesta infame situação, num dos países mais ricos do mundo, mas corruptos também? Até o velho pajé Miratinga, líder inconteste dos Uru Eu Uau Uau, das belas selvas rondonienses, na reserva Djaru Uaru, deu sua colherzinha de sabedoria neste tema de hoje.

Disse o velho sábio que conversa com os espíritos da maior floresta tropical do mundo, que ele sente até o choro das árvores quando a motosserra corta seus troncos, quanto mais os choros dos homens que são espezinhados, maltratados, enganados, feridos nos combates insanos mundo afora; seja por religiões fundamentalistas que lançam bombas em seitas diferentes, ou pela fúria da própria natureza que está cobrando seu ônus por causa do que fazemos com ela.

Um dia o homem vai chegar numa situação que nem chorar mais vai, diz o poeta da selva que as lágrimas são como os rios e os mares, mas um dia ela secará! Vou! Fui! Inté!

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamazonia39@gmail.com Contato P\palestras 17-99186-7015.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s