Uma história de alma pura

Essa história é verdadeira, conta a vida de uma pessoa que se pode comparar a um anjo caído na terra, veio para alegrar uma família de imigrantes ítalo-espanhola que aportou em Santos antes de 1900. Essa família era comandada por uma matriarca que tinha o nome de Ana, que deixou um casarão de pedras no centro de Roma para tentar a sorte na América. Na Itália daquela época, dizia-se que no Brasil bastava rastelar o chão dos cafezais em São Paulo, para recolher dinheiro. Ana, era ainda uma jovem linda e mãe de América, a primeira filha brasileira que se tornou uma mulher bela e cobiçada por vários mancebos, mas que se encantou por outro imigrante que veio no mesmo navio com seus pais e, se chamava José.  Os dois se conheceram em Jaú, interior de São Paulo, se apaixonaram e casaram formando uma família com sete filhos, quatro homens e três mulheres.

América além de ser muito bonita, era cobiçada até pelos patrões e por outros jovens, trabalhava no cafezal e valia mais que meia dúzia de outros lavradores e, alimentava com amor os sete filhos que teve com José. Este, foi um bom marido, era  calmo e tranquilo em sua peculiaridade. Além dos homens,  tiveram três mulheres, Nair, Leonor e Luzia, sendo que a Nair que cuidava da família, faleceu sem casar e ter filhos.

Os três filhos varões de América foram ainda jovens para a capital onde trabalharam em fábricas e como pedreiros e, depois por conta própria, fundaram uma fábrica de geladeiras industriais e cresceram. Eram eles, Severino, Mário e Flavio Pedrini. Severino tornou-se o cabeça da família, construiu casas e sobrados que alugava ou vendia em sociedade com os irmãos e assim prosperava. Ele veio morar em São José do Rio Preto e foi dos primeiros moradores do Jardim Bordon.

Com sua esposa Maria Marttos, espanhola, trabalhadeira e humilde, com quem teve um casal de filhos, Edson e Elisabeth, foram levando a vida. Mas Severino trouxe seu irmão Guerino, o mais velho, o que era excepcional, e, todavia, vivia normalmente porque seu problema neurológico não era perceptível a não ser que se mantivesse contato audiovisual c0m o mesmo.

Em São Paulo, os irmãos de Guerino, que tinha estatura mediana, pouco mais de 1.70m, olhos claros e meio forte, o levaram para uma casa de prostituição para tentar tirar a virgindade dele. Isso era tido como tradição na época. Guerino se manteve inocente como no dia em que veio ao mundo. Ele foi também sequestrado por um vizinho que, depois de vinte dias, simulou que o encontrou quando ia para Santos. O jovem estava com os pés inchados e cheio de picadas. A avó América pagou o táxi que o trouxe e ainda deu uma importância equivalente hoje a uns três mil reais para o bandido que vendia maconha na época. Severino queria dar uma surra no bandido, mas a avó América não deixou.

Apesar de sua deficiência neurológica, Guerino trabalhava numa indústria têxtil e ajudava em casa com seu salário. Ele carregava caminhões transportando enormes fardos de algodão nos ombros, pois era forte como um touro, assim dizia sua avó América. Certo dia Guerino chegou em casa sem o envelope do seu salário. Ela sabia o dia em que ele recebia e pegava seu dinheiro e depositava numa conta na Caixa Federal. E, quando precisava, sacava o necessário para comprar roupas e calçados para o neto querido. Perguntado sobre seu pagamento do trabalho, Guerino disse que encontrou o São Benedito no caminho de volta para casa e deu o dinheiro do salário para o (pseudo) santo. Era puro como um anjo e gostava de ir na igreja comprar santinhos e dar esmolas.

 Severino, que passou a cuidar do irmão após a morte da avó América, comprou uma fazendinha na margem do Rio Turvo, no distrito de Baguaçu e, foi com Maria e os filhos Elisabeth e Edson morar na casa da fazenda. Lá contrataram um jovem chamado Alvino Alves, como meeiro. Tudo que produzia, em animais ou lavouras, ele tinha metade e o jovem era tão bom que foi com o tempo sendo tratado como filho dos Pedrini.

Certo dia Guerino queria comer mangas, sua cunhada, Maria, deu-lhe um latão de cinco litros para ir ao curral onde estava o Alvino tirando leite. Mas antes, ele  passou num pé de manga e chegou com a cara lambuzada de amarelo, de tanta manga que chupou e comeu. Alvino disse para ele não tomar leite, pois poderia passar mal e, até morrer, de acordo com a crença inventada pelos senhorios para que os escravos não bebessem o leite que era raro na época das senzalas. Guerino chegou em casa e foi repreendido pela cunhada Maria José, porque, o latão estava vazio, sem uma gota de leite sequer. Guerino acabou com um mito secular, leite com manga não faz mal a ninguém.

Certo dia Alvino estava arando uma roça com uma mulinha puxando um arado. Ele comandava a mulinha só fazendo “pruuu”, com a boca, a mulinha andava ou parava quando ouvia este sinal vocal do jovem. Guerino percebeu e chegou perto e disse: Quer dizer Alvino que se eu disser “pruuu” a mulinha vai parar? E a mulinha parou. E Guerino falou “pruuu” de novo e, ela voltou a andar. Alvino viu que não poderia mais trabalhar e chamou o patrão Severino que, agora, era seu padrinho de casamento e, após contar o que estava acontecendo, pegou seu irmão pelo braço e, rindo muito, o levou para almoçar, já que sua esposa Maria José Marttos estava na porta esperando por eles. Gostei muito desta história, e minha Santa Tambura também!  Guerino morreu em Rio Preto com 80 anos de idade. O seringalista Sissi também disse que gostou. Vou! Fui! Inté!

Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista. kfouriamazonia39@gmail.com Contatos P\palestras: 17-99186-7015.

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